Nanette König, muito além de ser a amiga de Anne Frank

De tanto que eu falei sobre a Anne Frank aqui, as pessoas já começaram a me associar a toda notícia sobre ela. Tô achando lindo, porque realmente acho muito interessante todos os apectos da vida dela. E, assim, fiquei sabendo sobre uma exposição itinerante que está acontecendo em algumas unidades do Senac, chama Aprendendo com Anne Frank (valeu, Carol!).

A exposição passou pela unidade de Santo André em julho e, entre várias atividades, uma me chamou muito a atenção: uma palestra com Nanette König, amiga de Anne dos tempos de escola. A palestra era grátis, em um dia de semana, no meio da tarde. Na mesma hora me inscrevi, marquei a data na agenda e me organizei para conseguir ir. Fui achando que seria um depoimento rapidinho, do tipo “Ai, Anne fez trabalho comigo uma vez e foi um amor” e histórias bobinhas assim. Logo que cheguei, encontrei a sala cheia de adolescentes barulhentos, levados pela escola, e já quis desistir ali mesmo. Ainda bem que não desisti, porque eu não podia estar mais enganada.

NA época de escola e hoje. Foto: Estado de São Paulo.
NA época de escola e hoje. Foto: Estado de São Paulo.

Nanette era uma criança judia em Amsterdam na época da II Guerra Mundial. Como tantas outras, teve sua vida completamente modificada com a dominação nazista e foi parar em um campo de concentração. Lá, foi se despedindo aos poucos de toda a família (pai, mãe e irmão), vendo-os sendo levados para outros campos para morrerem. Nanette ficou sozinha em Bergen-Belsen, com o “privilégio” de ser escolhida como prisioneira para troca por outros presos. Por isso, ela não tem a tatuagem com seu número, não teve o cabelo cortado e podia, a qualquer momento, ser enviada para outro local. Nanette resistiu, como ela mesma diz, por puro acaso. Passou fome, quase morreu ao irritar soldados nazistas, podia ter morrido de fome ou tifo. Foi o acaso que a fez estar viva para ver o dia de libertação do campo e o fim da Guerra.

Ao ser resgatada, passou três anos internada em um sanatório. Demorou um ano para que seu sistema digestivo voltasse ao normal. Quando saiu de lá, sem nenhuma família próxima, foi morar em Londres com uma tia. Lá, conheceu um rapaz que também havia perdido os pais (não na Guerra) e estava se mudando para o Brasil. Eles namoraram à distância por um tempo, até que casaram e vieram morar em São Paulo.

Nanette e John, seu marido, no dia do casamento. Foto: Estado de São Paulo.
Nanette e John, seu marido, no dia do casamento. Foto: Estado de São Paulo.

Foi aqui que Nanette teve seus filhos, viu os netos crescerem e constituiu sua vida. Sempre inquieta, resolveu fazer faculdade quando já era avó. Hoje, dá as palestras para que as pessoas entendam o que foi o holocausto, a extensão do absurdo e para ter certeza de que isso não se repetirá. Ela é uma senhorinha super simpática, engraçada e cheia de opinião. Um exemplo de vida.

Ah! O que ela falou sobre Anne? Que eram colegas de sala, que estava na festa de Anne quando ela ganhou o diário e que a reencontrou, através de uma grade, por pura coincidência, no campo de Bergen-Belsen, na época em que ela morreu de tifo. E foi mais do que o suficiente, porque todos ali na sala queriam era saber mais da história de Nanette. Em muitos momentos me emocionei e vi todos ao redor terem os olhos cheios d’água também. Os adolescentes? Só riam ou falavam quando a Nanette contava um fato engraçado ou dava uma pausa no falatório, todos vidrados.

Encontrei a palestra que ela deu no Senac de Americana no começo do ano e é, basicamente, a mesma a que assisti. O vídeo é bem longo, mas vale a pena:

Saí de lá com a alma cheia. Se alguém que passou por tudo isso conseguiu retomar a vida, ser feliz, encontrar amor, ter vontade de viver e de lutar para que nunca esqueçam o quão terrível o ser humano pode ser, eu só tenho mesmo é que agradecer pela vida que tenho. Aposto que vocês também. Agradeçam, amiguinhos. E nunca, nunca esqueçam do que a humanidade já fez.

Nanette lançou um livro recentemente, chamado Eu sobrevivi ao holocausto e, claro, já estou doida por ele.

BEDA-2015

Comentários via Facebook

5 comentários

  1. Bruna Tabosa (Rabiscos Atômicos) em | Comentou pela primeira vez, boas vindas! Responder

    Olá, Ana! Eu leio bastante sobre a Anne e sobre assuntos relacionados ao holocausto. Me senti lendo o diário como se estivesse lá com eles e isso me fez pensar sobre muita coisa! É uma grande história a da Nanette e também a da Anne, apesar de que esta teve um final triste. Adorei o seu blog! Grande abraço!

  2. Nanda em | Sempre vem aqui e já comentou 122 vezes. ;) Responder

    Nossa, Ana, só de ler seu post já fico com lágrimas nos olhos. Desde a escola não consigo lidar bem com o holocausto, mexe comigo, tanto que nunca me aprofundei muito nas histórias. Mas vou guardar o link para ver a palestra, acho que o mais importante em depoimentos como esse é o que você disse: nunca esquecer o que a humanidade já fez. Obrigada pela dica do livro também.

  3. Chell em | Sempre vem aqui e já comentou 309 vezes. ;) Responder

    Quando a gente se dá conta que tem gente que passou por tanta, mas tanta coisa ruim e está ai vivo a gente fica até culpado de reclamar das coisas né? Deve ter sido demais mesmo! Vou guardar o link aqui pra ver a palestra depois.

  4. Déa em | Sempre vem aqui e já comentou 20 vezes. ;) Responder

    Desde muito cedo eu sempre pensei “grandes bostas ser libertado, como seguir a vida depois sem casa, comida, família?”. Bem, na graduação li muito sobre destino dos escravos após a “libertação” dos mesmos, me revoltei muito etc., mas nunca li nada sobre as pessoas no pós guerra. Daí um dia vi que Netflix tem um documentário chamado “Touched by Auschwitz”, que relata sobre a vida das pessoas no pós guerra. Assisti e muito do que eu pensava é verdade. Tem gente que largou o judaísmo, que culpa deus, gente que foi estudar psicologia, pessoas que se tornaram muito mais amorosas, pessoas que tornaram-se muito agressivas ou irritadiças. O depoimento mais legal é de uma moça que diz que sempre que ela tem um problema ou está mal, ela lembra de quão amoroso e paciente o pai, sobrevivente do holocausto, é, e ela sente vergonha por reclamar de coisas banais. Tapa na cara. Veja, sério, maravilhoso.

    1. Ana Carolina em | Administrador/a do blog. Responder

      Esse documentário tá na minha lista do Netflix há tempos, Déa. Só ainda não peguei um dia em que estivesse no pique para assistir, mas tô bem curiosa.

Deixe o seu comentário